PSICOLOGIA DINÂMICA: A ALMA SEGUNDO A FILOSOFIA PERENE DE TOMÁS DE AQUINO

A sanidade possível nesta vida

A alma é, fundamentalmente, dinamismo vital. A expressão considera que a psique humana é o conjunto de relações metafísicas radicadas num composto de matéria (corpo) e forma (alma = princípio intrínseco de movimento do corpo). Dizer “homem”, neste contexto, é afirmar a realidade primária da qual é impossível escapar: somos corpo animado. Mas com um detalhe: tal animação não tem no plano sensitivo o seu limite, pois o homem é capaz de ir além das notas tópicas percebidas pelos sentidos e alcançar a universalidade dos conceitos.

Lembremos aqui que o termo grego dynamis ficou consagrado pela metafísica – chamada por Aristóteles de Filosofia Primeira – como “potência”, idéia que, em linhas gerais, indica capacidade de realização. Por sua vez, ato (energeia) indica algo já realizado, no pleno exercício de ser o que é. Ato e potência são o fundamento da realidade, pois em todas as coisas há uma mescla de ser (ato) e de poder ser (potência).

No caso da alma humana, frise-se que ela própria é uma estrutura dinâmica, na medida em que possui um conjunto de capacidades radicadas na forma substancial cujas potências superiores estão aptas a abstrair os conceitos da realidade material e, com isto, transcender o âmbito do meramente sensitivo.

Por esta razão, viver, para o homem, não é apenas sentir, nem sentir de maneira irracional, mas sentir entendendo e querendo. Ou melhor: entender e querer sentindo. Estes são, de acordo com Tomás de Aquino, os dois atos propriamente humanos, absolutamente imateriais: apreender as verdades e apetecer as coisas na medida do bem que nelas o homem consegue perceber, e nisto o corpo joga um papel instrumental. De todas as relações implicadas no composto humano de matéria e forma, as que existem entre a inteligência e a vontade – potências superiores devido à imaterialidade dos objetos aos quais tendem – são as mais importantes. Em síntese, a inteligência subministra à vontade à forma de bem que servirá a esta de meio para que escolha de maneira adequada, em cada circunstância existencial.

Em tal conjuntura, manter-se saudável é não contrariar a dinâmica do radical conjunto de relações entre o corpo e a alma (esta, com as suas várias potências sensitivas, motrizes, apetitivas, volitivas, intelectivas, etc.).

Podemos ainda dizer que  uma alma doente é uma alma estática, no sentido de que, por problemas quaisquer, atrapalhou este dinamismo vital que culmina satisfatoriamente nos atos da inteligência e da vontade.

Ao contrário do que sucede com psicologias de fundo psicanalítico, assim como de várias outras vertentes em voga na contemporaneidade, a Psicologia Dinâmica pressupõe que é possível a cura, entendida como preservação da hierarquia de potências radicadas na alma humana, a qual tem em seu ápice a inteligência. Em resumo, a inteligência é o epicentro da personalidade humana, razão pela qual é preciso preservá-la de tudo que contrarie o seu movimento natural de apreensão das verdades.

Em palavras breves, uma alma sã é uma alma veraz, que não sucumbiu à desordem das paixões.

O realismo desta visão de matriz metafísica está no fato de que a sanidade não pode ser alcançada de maneira absoluta, mas nem por isso deixa de ser uma tendência natural do homem.

O papel do psicólogo, neste contexto, é manter intacta, na medida do possível, a tendência de cada uma das potências radicadas na alma humana. É ajudar o paciente que o procura a conhecer-se melhor e, a partir daí, libertar-se de tudo o que possa levá-lo a estados mentais problemáticos. Por fim, é contribuir para que as pessoas resgatem o “princípio de humanidade” de que fala o escritor Jean-Claude Guillebaud, em texto memorável no qual aponta para dolorosos fatos históricos recentes, quando a tentativa de redefinição da humanidade do homem culminou em situações dramáticas, como no caso do nazismo.